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Brasil: Maior consumidor de crack no mundo

Divulgação
Estudos revelam que usuários tiveram primeiro contato com a droga antes dos 18 anos.

 

Um em cada 100 brasileiros adultos usaram crack no último ano. Se considerada também a forma em pó da cocaína, 6 milhões de pessoas, ou 4% da população com mais de 18 anos, já experimentaram a droga. Dessas, 2,8 milhões fizeram uso nos 12 meses passados. Os números divulgados pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que elaborou o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), colocam o Brasil como segundo consumidor mundial de cocaína e derivados, atrás apenas dos Estados Unidos, em números absolutos de usuários. O país é apontado como o maior mercado de crack, com a marca de um milhão de pessoas utilizando a substância.

 




"Essa constatação de que o Brasil é o maior mercado consumidor de crack vem de uma indução nossa, em função de outros países não terem tanto problema de crack e considerando um milhão de usuários aqui", explica a psicóloga Clarice Madruga, uma das autoras do estudo. Um dos achados mais preocupantes do levantamento — financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) — é o de que 45% dos usuários de cocaína, em qualquer forma usada, tiveram o primeiro contato com a droga antes dos 18 anos. "É a idade em que o consumo mais afeta o cérebro, com chances aumentadas de causar dependência e de desencadear doenças psiquiátricas no futuro, como os distúrbios de ansiedade e de humor."

 




O número de adolescentes de 14 até 18 anos que fizeram uso de cocaína, em qualquer forma de apresentação do entorpecente, no último ano também assusta: 244 mil pessoas (ou 2% da população nessa faixa etária), segundo o Lenad. "Esse índice elevado de usuários jovens nos sugere uma projeção, no futuro, muito sombria no que diz respeito à dependência química. Outro ponto a ser considerado é que o adolescente tem uma percepção de risco muito baixa, em função da pouca maturidade", destaca Carlos Salgado, especialista em dependência química e integrante da Associação Brasileira de Psiquiatria.

 




Das 2,8 milhões de pessoas que fizeram uso no último ano de cocaína, crack ou outros derivados, como merla e oxi, 78% utilizaram a droga em pó e 31% na forma fumada. Do total, 48% desenvolveram dependência química, segundo critérios científicos analisados na pesquisa. "É dizermos que a cada dois, um se tornou dependente. Ou seja, uma roleta russa para quem experimenta", afirma Clarice. A pesquisa detectou ainda que 70% dos usuários de cocaína também utilizaram maconha no último ano. "Mas isso não quer dizer que uma leve à outra. Não há dados suficientes para afirmar que a maconha é porta de entrada para outras drogas", diz a pesquisadora. Em um recorte regional, o Centro-Oeste aparece como campeão em uso de cocaína no último ano, com 2,6% entre adolescentes e adultos, seguido pelo Sudeste, com 2,2%.

 



No plano mundial, em ranking feito com países que dispõem de dados na Organização Mundial da Saúde, o Brasil aparece em nono lugar em proporção da população consumidora de cocaína, com 2% tendo usado no último ano e 4%, na vida. Em termos absolutos, porém, o país passa para o segundo lugar. "2% no Brasil significa muita gente, são 2,8 milhões de pessoas, por isso usamos o dado absoluto", explica Clarice.

 




Tratamento



Do total, 27% afirmaram usar mais de duas vezes por semana, 30% disseram ter vontade de parar e 10% chegaram a procurar algum tratamento. "Mas sabemos que a cobertura é pequena para essa minoria que chega. Imagine o tamanho do desafio que é ter uma rede preparada para atender a todos", alerta a psicóloga Ilana Pinsky, da Associação Brasileira de Estudos sobre Álcool e Drogas (Abead).

 




Ela ressalta que países como os Estados Unidos, que conseguiram conter o avanço do crack, utilizaram diferentes mecanismos. "Não existe uma forma de adaptar. Ainda não sabemos exatamente o que funciona. Lá, endureceram a legislação, o que levou a um efeito colateral de lotar as cadeias. Notou-se também uma mudança de comportamento, uma substituição do crack por outras drogas menos devastadoras, como as metanfetaminas", explica Ilana. "Mas sabemos que é preciso investir na política de tratamento, com clínicas particulares e públicas."

 



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